Capítulo 18 de Mateus - Entenda o chamado de Jesus para a humildade, o cuidado com o próximo e a responsabilidade cristã.
O décimo oitavo capítulo de Mateus contém lições valiosas. Os discípulos estão "ao redor de" Jesus e lhe farão perguntas que ecoam em seus corações, recebendo de Cristo as lições mais profundas e espirituais que poderiam receber. Minhas palavras em comentários seriam completamente desnecessárias, tão valiosos e precisos são os ensinamentos de Jesus; mas, ainda assim, trarei um esboço mais filosófico do que teológico, já que essa passagem tem diversas conversas que "refletem oposição" à natureza humana.
Versículos de Mateus 18 com comentários
1 Naquela hora os discípulos se aproximaram de Jesus, e perguntaram: Ora, quem é o maior no Reino dos céus?
Os discípulos perguntam a Jesus sobre quem seria o maior no reino dos céus. E esse "maior" pode ser representado por uma figura ou característica, seja física ou de algum atributo mensurável na visão humana — talvez força, poder, status, beleza, dom artístico, conhecimento e até mesmo riqueza.
2 Então Jesus chamou a si uma criança, e a pôs no meio deles,
3 e disse: Em verdade vos digo, que se vós não converterdes, e fordes como crianças, de maneira nenhuma entrareis no Reino dos céus.
4 Assim, qualquer um que for humilde como esta criança, este é o maior no reino dos céus.
A resposta de Jesus foi usar uma criança, que justamente não tinha força nenhuma, não era dotada de poder, nem mesmo era doutor ou rico; dela não emanava nenhum status visível aos homens, era simples e humilde. Seu sustento, em um país pobre como a Judeia dos tempos de Jesus, a tornava completamente dependente e vulnerável.
Isso torna a criança a maior do reino dos céus, pois em seu coração não tem arrogância, competitividade, ódio, soberba, apenas dependência de Deus. Ela sabe que é pequena e que não pode, sozinha, fazer nada, nem mesmo cuidar de si mesma. Mas, nessa personalidade simples, essa criança não tem máscaras, amarras, tradições ou falsidades; inocente de tudo, Deus nos ensina que devemos ser humildes como crianças para que possamos alcançar a eternidade.
5 E qualquer um que receber a uma criança como esta em meu nome, recebe a mim.
Na passagem das Sagradas Escrituras, diz:
"Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram" (Mateus 25:42-43).
Portanto, aceitar a criança é cuidar do próximo, ser coletivista, gentil com o estrangeiro, caridoso com os órfãos e as viúvas (qualquer pessoa que tenha dificuldades ou limitações, seja por questões psicológicas, físicas e até mesmo espirituais). Esse é o papel da igreja na Terra, e a prática disso é ser igreja; e todos podemos fazer isso de alguma forma. Quando você conserta um chuveiro queimado de um idoso, viúva ou divorciada que não tem a quem pedir ajuda; quando você doa alimentos, por mais simples que sejam, a uma pessoa desempregada; quando devolve um utensílio perdido a um viajante; ou mesmo quando doa roupas, móveis ou eletrodomésticos que você não usa ou não precisa para famílias que podem estar precisando e que farão melhor uso.
6 Mas qualquer um que conduzir ao escândalo a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que uma grande pedra de moinho lhe fosse pendurada ao pescoço, e se afundasse no fundo do mar.
7 Ai do mundo por causa dos escândalos! Pois é necessário que os escândalos venham, mas ai daquela pessoa por quem o escândalo vem!
|fn: TR, RP: daquela - N4: da
Escandalizar um pequenino, causar desgraça a um inocente, é o oposto de cuidar; é melhor morrer do que praticar o mal a uma pessoa inocente. Jesus revela, em suas palavras, a "punição" que será vindoura contra os maus, aqueles que roubam os necessitados. O curioso é que hoje isso é algo que diversos líderes religiosos, como padres, pastores e políticos de inclinação religiosa, deveriam ler e meditar. Quantos destes não roubam, não pedem dinheiro às multidões em "fogueiras santas", emendas, campanhas de doações, entre outras iniciativas de captação de recursos que, no discurso, é "ajude a igreja"? Mas essas captações não são para "ser igreja"; muitas vezes, servem apenas para alimentar e enriquecer uma elite local daquela denominação — e do bolso desses cães gulosos, nunca sai um centavo.
Cristo adverte que é necessário que tudo isso ocorra para que os justos e os injustos despertem; mas assim como quem pratica a caridade e a justiça receberá o nosso Senhor em si, aqueles que praticam a injustiça receberão a ausência de Cristo — e sem Ele não existe salvação, apenas condenação. Ai daquele que não praticar as ações dignas e necessárias no plano físico que Cristo ordenou como critério para que, espiritualmente, Ele habitasse em nós!
8 Portanto, se a tua mão ou o teu pé te conduz ao escândalo, corta-os, e lança-os de ti; melhor te é entrar manco ou aleijado na vida do que, tendo duas mãos ou dois pés, ser lançado no fogo eterno.
|fn: conduz ao escândalo – i.e. faz pecar. Também no v. 9 |fn: N4 inverte a ordem de "aleijado" e "manco"
9 E se o teu olho te conduz ao escândalo, arranca-o, e lança-o de ti. Melhor te é entrar com um olho na vida do que, tendo dois olhos, ser lançado no inferno de fogo.
Cortar o que te conduz ao escândalo, o que "te leva", é o que te prende no pecado. Em uma determinada passagem, Jesus conversa com um homem rico que tinha muitos bens, e este Lhe pergunta o que devia fazer para seguir a Cristo. Jesus o responde: largue tudo o que tem!
O problema não era ele ser rico ou ter muitos bens, mas sim que esses bens eram como amarras ao pecado e, por causa deles, ele não conseguia seguir a Cristo de todo o coração. Sua riqueza o levava ao pecado. Assim como esse homem, existem coisas que possuímos que nos levam ao pecado: para alguns, uma beleza extrema; para outros, a vaidade, uma amizade, o trabalho ou profissão, e até mesmo um costume — coisas às quais estamos vinculados, mas que não nos permitem ser pessoas melhores, seguir em frente e estender a mão ao próximo, praticando as ações norteadoras que nos levam a Jesus, nosso Deus.
10 Olhai para que não desprezeis a algum destes pequeninos; porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre veem a face do meu Pai, que [está] nos céus.
11 Pois o Filho do homem veio para salvar o que havia se perdido.
|fn: N4 omite todo o versículo 11
Os seus "anjos nos céus sempre veem a face do meu Pai...". Essa passagem é metafórica, mas rica em sentido filosófico e espiritual. O capítulo como um todo — em especial do versículo um ao onze — tem o enfoque de quem "recebe a Cristo" e, através disso, chega ao reino de Deus. Os anjos de Deus, nesse sentido, são aqueles que metaforicamente estão nesse reino praticando a justiça. Nesse sentido filosófico, o reino de Deus e o reino do diabo estão presentes no nosso plano, e os anjos de Deus são conhecidos por suas obras e ações; por meio dessas ações, eles chegam à presença de Deus em seu reino e veem a sua face, representando a intimidade que o justo tem com Deus.
12 Que vos parece? Se alguém tivesse cem ovelhas, e uma delas se desviasse, por acaso não iria ele pelos montes, deixando as noventa e nove, em busca da desviada?
13 E se acontecesse de achá-la, em verdade vos digo que ele se alegra mais daquela, do que das noventa e nove que se não desviaram.
14 Da mesma maneira, não é da vontade do vosso Pai, que [está] nos céus, que um sequer destes pequeninos se perca.
15 Porém, se teu irmão pecar contra ti, vai repreendê-lo entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste o teu irmão.
|fn: N4 omite "contra ti"
O homem nasce neste mundo completamente perdido, sem noção do certo ou do errado. Com o tempo, essa mente é formada, aprendemos sobre a vida em seus inúmeros aspectos, mas permanecemos perdidos. Mesmo quando já fazemos parte de um rebanho, ainda podemos nos perder — algo compreensível em um mundo com uma carga gigantesca de informações, injustiças e ideologias que nos desviam do caminho. Então, o Pastor se direciona à nossa procura para nos salvar.
Uma pergunta comum nos círculos teológicos é: se Jesus usa o numeral de cem ovelhas e todas tinham um pastor, esse pastor deixa as noventa e nove ovelhas sozinhas?
E a resposta é sim. A diferença é que estas não estavam perdidas, elas sabiam onde estavam; a própria presença do grupo as norteava, sendo vital para a sua sobrevivência. A figura do pastor é vital para assegurar a possibilidade de retorno para a ovelha perdida, mas o grupo de ovelhas é igualmente vital para a unidade e segurança do rebanho. Um grupo remete à existência de um líder, e um líder alude a um pastor. Essa possibilidade de existência, mesmo quando este não está manifestamente presente, afasta predadores e faz com que os inimigos do rebanho entendam a possibilidade de uma resposta em retaliação a qualquer ofensiva.
Retomando ao pastor que busca a ovelha perdida, o céu se alegra com o seu retorno; e o versículo quinze nos adverte para o cuidado quanto ao convívio coletivo: sabedoria para criticar, alegria em exaltar.
16 Mas se não ouvir, toma ainda contigo um ou dois, para que toda palavra se confirme pela boca de duas ou três testemunhas.
|fn: Ref. Deuteronômio 19:15
17 E se não lhes der ouvidos, comunica à igreja; e se também não der ouvidos à igreja, considera-o como gentio e cobrador de impostos.
18 Em verdade vos digo que tudo o que vós ligardes na terra será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
|fn: será ligado – ou: terá sido ligado |fn: será desligado – ou: terá sido desligado
19 E digo-vos também que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que [está] nos céus.
|fn: TR: também - RP, N4: também em verdade
20 Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles.
A existência de um rebanho, embora sem a presença visível do pastor, emana a sua presença espiritual. Uma vez li um livro de ficção da Segunda Guerra Mundial chamado "A Chave para Rebecca". Em um dos capítulos, é apresentado um personagem chamado Isaque; este era um pastor nômade que vivia entre as terras do Egito até a terra da Palestina, e ele disse algo no livro que me chamou a atenção: suas ovelhas sabiam o seu cheiro, mesmo de longe; sabiam sua voz, conheciam o caminho por onde ele percorria e ele, igualmente, mesmo que não tivesse um nome para suas ovelhas, conhecia a todas.
Esse conhecimento são princípios. Sabemos o que o nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou e, guardando suas palavras e aplicando-as em ações, faremos o que o próprio Bom Pastor faria. Nossa decisão coletiva é como a própria decisão de Deus: "assim na Terra, como no Céu...". Mesmo em um plano terrestre, nossas ações e decisões representam o Reino dos Céus, existindo concordância tácita; mas, para isso, os princípios existentes nas palavras do Eterno precisam estar presentes.
21 Então Pedro aproximou-se dele, e perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?
|fn: TR, RP: aproximou-se dele, e perguntou - N: aproximou-se, e perguntou-lhe
22 Jesus lhe respondeu: Eu não te digo até sete, mas sim até setenta vezes sete.
23 Por isso o Reino dos céus é comparável a um certo rei, que quis fazer acerto de contas com os seus servos.
24 E começando a fazer acerto de contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos.
25 Como ele não tinha com que pagar, o seu senhor mandou que ele, sua mulher, filhos, e tudo quanto tinha fossem vendidos para se fazer o pagamento.
26 Então aquele servo caiu e ficou prostrado diante dele, dizendo: “Senhor, tem paciência comigo, e tudo te pagarei”.
|fn: N4 omite "Senhor"
27 O senhor daquele servo compadeceu-se dele, então o soltou e lhe perdoou a dívida.
28 Todavia, depois daquele servo sair, achou um servo, colega seu, que lhe devia cem denários; então o agarrou e o sufocou, dizendo: “Paga-me o que [me] deves!”
|fn: denários – uma moeda de prata que valia um dia de trabalho braçal |fn: N4 omite "-me"
29 Então o seu colega se prostrou diante dos seus pés, e lhe suplicou, dizendo: “Tem paciência comigo, e tudo te pagarei”.
|fn: N4 omite "diante dos seus pés"
30 Mas ele não quis. Em vez disso foi lançá-lo na prisão até que pagasse a dívida.
As ações de Deus conosco são de amor, e um ato de amor é o perdão. A pergunta de Pedro era eivada da Lei do Talhão, onde o perdão não era a base nas relações, e sim a retaliação: se eu recebesse um tapa, então deveria responder com um tapa; mas Jesus ensinava que o perdão era o caminho a partir dali, e que não existiam limites para perdoar.
Mas Jesus vai mais longe: ele ensina como proceder quando recebemos o perdão, dando um exemplo de alguém que não fez por merecer — um servo que devia ao rei e que foi perdoado. Mas este que recebeu uma grande bênção não a compartilhou com o mundo; quando teve a chance de perdoar alguém, não tomou da sua experiência como uma lição e, em vez disso, condenou seu semelhante.
Todos nós somos como esse servo mau quando não dividimos as bênçãos que recebemos de nosso Pai Celestial com o próximo, e quando não perdoamos os nossos semelhantes.
31 Quando os servos, colegas dele, viram o que se passava, entristeceram-se muito. Então vieram denunciar ao seu senhor tudo o que havia se passado.
32 Assim o seu senhor o chamou, e lhe disse: “Servo mau! Toda aquela dívida te perdoei, porque me suplicaste.
33 Não tinhas tu a obrigação de ter tido misericórdia do sevo colega teu, assim como eu tive misericórdia de ti?”
34 E, enfurecido, o seu senhor o entregou aos torturadores até que pagasse tudo o que lhe devia.
35 Assim também meu Pai celestial vos fará, se não perdoardes de coração cada um ao seu irmão suas ofensas.
|fn: N4 omite "suas ofensas"
O perdão é parte do processo de salvação, e não o todo. Quando recebemos o perdão, devemos distribuir bênçãos, e não apenas receber. Nessa parábola, Jesus nos mostra o caminho para o Reino dos Céus, o único caminho para a salvação.
Todos os capítulos de Mateus comentado.
📑 Créditos da versão bíblica usada são da Blive (Bíblia Livre)
💬 Comentários são de Lucas Ajudarte.

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