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História de Israel em Juízes

Sobre o titulo do livro de Juízes, Lições espirituais e humanas das lideranças de Israel


Particularmente, é com alegria que vamos estudar este livro, pois trata-se de um livro bíblico com diversos significados. Para quem já leu meus estudos anteriores, em alguns menciono a importância de saber “interpretar” e “inferir” um texto. Em determinadas passagens da Bíblia, há significados claros que, numa primeira leitura, já podemos compreender facilmente. Outras, entretanto, não funcionam da mesma forma.


Em outro estudo, citei a importância de entender a Bíblia como a Palavra de Deus. E, se Deus é espírito, então a Palavra de Deus também possui um sentido espiritual. O livro de Juízes, por ser um livro histórico, é rico nesses elementos espirituais.


Outro fator que precisamos levar em conta ao estudar Juízes é que o livro é muito rico em histórias, que basicamente são várias micro-histórias dentro de uma mesma obra. Majoritariamente, fala de guerras e instabilidades geradas pela infidelidade do povo para com Deus. A forma como essa obra é redigida — cheia de figuras de linguagem, redes de alianças em luta por poder e guerras sem fim — me faz lembrar de outra obra literária antiga: a Odisseia. Nesse livro de Homero, o mundo dos personagens e de suas civilizações também é cercado de instabilidade.


Essas obras antigas são interessantes para estabelecermos paralelos, pois de certa forma nos ajudam a compreender aspectos da época: a mentalidade dos povos, os fatores que levavam em conta para tomar decisões, os modos como as guerras eram travadas, seus valores morais e a visão que tinham da religião na antiguidade.


Sobre o titulo do livro de Juízes, Lições espirituais e humanas das lideranças de Israel



TEMA  Pecado, servidão, tristeza, e salvação.

Uma questão que gosto de observar quando leio Juízes é que Israel sempre caía em pecado. Mesmo que esse evento ocorresse repetidamente, é importante frisar que existia uma minoria fiel. Essa é uma interpretação do texto, pois não está escrito explicitamente em todas as passagens. No entanto, o simples fato de que Israel histórico sempre se afastava de Deus, mas, quando a situação apertava, não buscava Astarote, Baal ou Dagom, e sim retornava à sua origem — ao Deus Jeová — mostra que havia, no meio do povo, aqueles que não se dobravam a Baal. Existia uma minoria fiel, uma pequena “igreja” que se mantinha firme na Palavra e, nos momentos mais importantes e decisivos da história de Israel, conseguia converter novamente as maiorias.


Há uma dinâmica nas ações de Israel: o pecado gera servidão e nos torna escravos. Espiritualmente, quando pecamos, nos tornamos escravos do pecado. O mentiroso fica refém de sua própria mentira; o homicida sempre terá a dúvida se alguém virá por vingança; o adúltero sempre terá medo do seu cônjuge ou de que outro interessado descubra. Assim, concluímos que o pecado gera servidão, e a servidão traz tristeza.


Certa vez tive amizade com uma irmã de uma igreja grande da região. Ela era cantora, havia sido recentemente ungida ao pastorado, mas vivia em profunda depressão. Quando postava vídeos de pregação, transmitia mensagens profundas e verdadeiras da Palavra, mas estava em pecado, e isso lhe causava uma tristeza terrível. Ela vivia uma vida dupla. Sempre que a encontrava pessoalmente, percebia sua tristeza, até que, aos poucos, ela baixou a guarda e me contou o que estava acontecendo. Fiquei chocado. Ela falava comigo e me olhava como se esperasse que eu tivesse a resposta para sua situação. Mas eu não podia ajudá-la em nada além de aconselhar que buscasse a Deus.


Esse exemplo dialoga bem com a sequência: pecado, servidão, tristeza e salvação. O estágio final é a salvação, que só podemos encontrar em Deus. Assim como essa amiga, Israel também só poderia ser salvo quando retornava para Deus — e Deus sempre salvou Israel.

AUTOR  

É importante frisar que, embora a autoria seja atribuída a Samuel, precisamos entender que ele não viveu durante todo o período em que ocorreram esses eventos históricos. Portanto, quando dizemos que Samuel escreveu esse livro, devemos ter em mente que essa é uma interpretação da tradição. Para que ele tivesse redigido essas histórias em um texto unificado, é necessário considerar que provavelmente teve acesso a um conjunto de outros escritos ou mesmo às tradições orais, e a partir disso compôs o livro de Juízes. Esse processo ocorre com quase todos os livros da Bíblia.


Assim, mais importante do que sabermos quem escreveu é compreender quais histórias e mensagens o texto nos transmite. Muitos livros da antiguidade recebiam atribuições a alguma figura histórica famosa com o intuito de aumentar sua credibilidade perante a sociedade. No entanto, a verdade é que muitos desses escritos são anônimos ou foram compilados por escribas, rabinos e outros interessados. Isso não torna o livro uma mentira; pelo contrário, era uma prática cultural comum na antiguidade.


PERÍODO DE AÇÃO  

O livro cobre o período entre a morte de Josué e o juizado de Samuel, aproximadamente 350 anos.

Os eventos do livro de Juizes ocorreram entre os anos 1200 ac a 1000 ac.

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O Período Após Josué (Capítulos 1:3-4)  


O tópico um precisa ser analisado com atenção. Para entendermos esse trecho da Bíblia, é necessário recorrer também a outras áreas do conhecimento além dela. Precisamos consultar o conhecimento de mundo. Deus ordenou que os israelitas derrotassem completamente o inimigo, e vamos discutir alguns motivos pelos quais eles falharam, em vez de apenas aceitar que “não conseguiram vencer a guerra”.


O primeiro motivo a ser observado é a exaustão da guerra. Nós, brasileiros, não conhecemos a guerra de perto; apenas ouvimos falar sobre ela. Mas quero compartilhar um pouco sobre esse tema. Alguns anos atrás, eu estava tentando melhorar meu inglês e, como alternativa de baixo custo, me indicaram um aplicativo chamado Ablo, uma rede social de pessoas do mundo todo com esse mesmo objetivo. O aplicativo era muito usado por pessoas de países do chamado “terceiro mundo”, especialmente de locais instáveis, que sonhavam em dominar o inglês para tentar migrar para outros países.  


Nesse aplicativo, conversei com libaneses, líbios, moçambicanos, angolanos e até colombianos. Muitos desses países sofriam com guerras sem fim. Sempre me interessei por conhecer outras culturas e aprendi que uma forma muito boa de entender como está a situação na Líbia, por exemplo, é ouvindo os próprios líbios, já que as mídias muitas vezes distorcem ou se concentram apenas nos países do “primeiro mundo”, mostrando apenas uma parte da realidade global.  


Em uma dessas conversas, fiz amizade com um líbio. Ele me contava sobre sua infância, antes da queda de Kadafi, e como as coisas eram na Líbia. Hoje, eles não conseguem sequer guardar dinheiro em bancos, porque o governo é instável e, de repente, muda o grupo guerrilheiro que controla tudo. Não há uma regulação sólida. Serviços públicos praticamente não existem, direitos humanos são ignorados, e o abastecimento de alimentos, remédios e roupas é escasso — luxo apenas para as classes altas. De repente, pode explodir um combate entre células do Boko Haram ou do ISIS, e as pessoas têm suas casas destruídas, bens saqueados, precisam recomeçar do zero ou perdem a vida, assim como pessoas próximas. É um completo caos.  


Se isso ocorre hoje, no século XXI, com toda a nossa tecnologia, sistemas jurídicos avançados e informação em escala global, imagine o mundo nos tempos de Juízes. Travar uma guerra durante a fase de estruturação das tribos, que durou entre 25 e 30 anos, era devastador. Para efeito de análise, a expectativa de vida nesse período histórico era de 45 a 60 anos. Ou seja, uma geração inteira só conheceu a vida em um cenário de guerra. Viver uma guerra longa é desgastante. Por mais que a Bíblia diga que Deus daria aquela terra, ela só seria conquistada lutando, e muita gente morria.  


Autores como Sun Tzu destacam que guerras prolongadas desgastam o Estado por dentro mais do que destroem o inimigo. Outro autor, Arnold Toynbee, ressaltou que o colapso de uma civilização estava ligado ao desgaste interno, geralmente atribuído aos efeitos de guerras longas.  


O segundo motivo está mais explícito na Bíblia: os israelitas preferiram tomar muitos dos povos cananeus como escravos. Isso está escrito em: (trecho a ser citado pelo autor).



As Apostasias de Israel, Cativeiros e Livramento (Capítulo 3:5-16:31)  

Juízes lista as sete maiores opressões dos israelitas, e é curioso observar que a Bíblia menciona isso sem se aprofundar em um “porquê”. Existe uma área de estudo na teologia chamada numerologia, que analisa o significado espiritual dos números. Alguns números podem até nos ajudar a interpretar determinadas passagens.  


Por exemplo, o número 3 pode ter mais de um significado, dependendo do contexto. Um deles é o ciclo ou estágio de tempo, seja curto ou longo. Jonas ficou na barriga do peixe por 3 dias; Israel teve 3 patriarcas — Abraão, Isaque e Jacó; Jesus ressuscitou após 3 dias; Ele também foi negado por Pedro 3 vezes; o galo cantou 3 vezes; e, no Getsêmani, Cristo confrontou seus discípulos adormecidos 3 vezes.  


Da mesma forma, o número 7 também possui um significado profundo na Palavra de Deus, frequentemente associado à plenitude, perfeição e conclusão de ciclos espirituais.


Da mesma forma, as 7 quedas de israel em juízes, são um ciclo completo, que representa provações, reconciliações e aprendizado.


- A Primeira Opressão (3:7-11)  

O pecado da idolatria levou Israel à primeira opressão sob a mão de Cusã-Risataim da Mesopotâmia. Eles serviram à Mesopotâmia e então Deus levantou Otniel, o sobrinho de Calebe, para ser juiz e libertador.

Uma das principais razões para o surgimento das primeiras opressões estrangeiras, segundo a Palavra de Deus, está em Juízes 3:5-6, que diz que os filhos de Israel passaram a permitir que seus filhos se casassem com mulheres estrangeiras. Quando faziam isso, os israelitas também passavam a adorar os deuses falsos desses povos, abandonando Jeová, o Deus verdadeiro, e abraçando tradições pecaminosas e diabólicas.


Ao destacar isso, é importante frisar que muitos cultos desses povos — como, por exemplo, o culto ao deus Dagom e à deusa Astarote — envolviam sacrifícios de crianças. Eram práticas extremamente diabólicas. Várias tradições que esses povos praticavam eram horríveis e abomináveis. Não é à toa que Deus, desde o início, exigiu que todo aquele povo fosse eliminado: o objetivo era varrer da história aquela cultura imoral.  


Por isso, em muitas ocasiões, tanto Deus quanto o Seu povo foram mais moderados no tratamento com determinados povos, como ocorreu quando Israel passou pelo deserto e teve contato com midianitas, moabitas e outros povos. Muitos desses povos também adoravam Jeová, mas não de forma exclusiva, e sim deísta. Seus cultos, muitos deles de origem abraâmica, eram tolerados. Israel não os adotava, e Deus também não os reconhecia como Seu povo. Mas, diferente dos cananeus, Deus queria o fim completo deles, justamente pela forma diabólica como seus cultos eram prestados.


As fontes dessas práticas pecaminosas aparecem em achados arqueológicos e até mesmo em livros antigos, como os textos de Ugarit, escritos sírios descobertos em 1928, que detalham os rituais e formas de culto aos deuses cananeus, em especial Moloque, Ishtar (Aserá) e Baal.


Mas Israel não obedeceu a Deus. Pelo contrário, começou a adorar deuses pagãos, e isso gerou servidão. O rei da Mesopotâmia dominou Israel, e eles o serviram por 8 anos. O povo sofreu, se arrependeu, e Deus levantou Otniel, parente de Calebe, para libertar Israel e derrotar os mesopotâmicos.

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Opressões e Anarquia


- A Segunda Opressão (3:12-31)  

Israel caiu na idolatria e imoralidade. Foram sujeitos a Eglom de Moabe por dezoito anos. Êude e Sangar foram os libertadores. Sangar feriu 600 filisteus com uma aguilhada de bois.

Em cada guerra que surgia, Israel precisava se rebelar. E em cada rebelião, aprendemos algo que vai além de simples passagens narrativas: Israel utilizava estratégias militares nessas guerras. Na segunda revolta contra forças estrangeiras, notamos que a estratégia foi diferente da primeira, que se resumiu a combates frontais, de forma clássica. Moabe era claramente uma força mais considerável que os mesopotâmicos, então, dessa vez, Israel tentou uma estratégia de decapitação.


Fazendo um paralelo com a história recente, quando um país possui um sistema hierárquico muito centralizado na figura de um líder supremo, esse país aparenta ter estabilidade, mas também carrega uma fraqueza: o que ocorre quando perde o rei. Israel agiu dessa forma. Eúde foi até o rei moabita com um presente, ganhou sua atenção e, em seguida, o assassinou. Com essa perda, o reino moabita e seu exército tiveram grandes dificuldades na tomada de decisões e em como reagir à agressão. Foram derrotados por Israel, que expulsou os moabitas, e a terra repousou em paz.


Essa estratégia de decapitação de lideranças é comum na história, tendo ocorrido até em tempos recentes. Em contextos bíblicos, por exemplo, no livro de Daniel, capítulo 5, o rei Belsazar, da Babilônia, é morto, e no mesmo dia os medos e persas invadem. Em meio ao caos, o regime babilônico cai facilmente.


- A Terceira Opressão (Capítulos 4 e 5)  

Vinte anos de sujeição aos Cananeus. Deus escolheu Débora como juíza e libertadora.

A terceira revolta israelita contra um domínio estrangeiro, desta vez, ocorreu contra um povo que eles mesmos haviam escravizado: os cananeus. Se Israel tivesse seguido as ordens do Senhor, teria eliminado completamente esse povo, mas, em vez disso, por ganância e cansaço, decidiram não expulsá-los definitivamente da região.


Essa passagem também nos mostra que Deus pode usar qualquer pessoa. O Senhor nunca foi machista: Ele sempre utilizou aqueles que tinham fé. Nesse episódio, somos apresentados a Débora, que era juíza e profetisa no meio do povo. Ela convocou Baraque, que liderou Israel militarmente, e juntos conduziram o povo à vitória contra os cananeus.

- A Quarta Opressão (6:1-8:32)  

Sete anos de servidão aos Midianitas. Gideão e seus 300 homens foram usados por Deus em um livramento milagroso.

Embora nas pregações e ministrações tradicionais a passagem de Gideão e os trezentos seja quase sempre usada em um sentido totalmente espiritual, ela também possui um significado humano, algo que podemos compreender melhor na linguagem prática e através de outras áreas do conhecimento.  


No sentido espiritual, entendemos que Deus queria que a vitória fosse creditada somente a Ele. Se Israel usasse um exército muito grande, diriam que não foi Deus quem deu a vitória. Então ocorre uma seleção: primeiro, Deus manda embora todos os que tinham medo — todos os que não estavam suficientemente motivados.  


Isso reduziu bastante o número de voluntários para a guerra. Mas, mesmo assim, Deus disse que ainda havia muita gente e fez uma nova rodada de seleção. Dessa vez, o critério foi a forma como o povo bebia água: os que se ajoelharam foram dispensados, enquanto os que se deitaram e lamberam a água foram escolhidos. Apenas 300 homens permaneceram. Um número muito pequeno, que parece não fazer sentido diante de dezenas de milhares de inimigos. O que afinal poderiam fazer apenas 300 soldados?  


No sentido espiritual, entendemos que Deus usou apenas aqueles que tinham fé, soldados cheios de bravura e fidelidade, dispostos a fazer o que fosse necessário para a vitória — até mesmo se humilhar como um cachorro. Esses homens tinham a firmeza e a coragem necessárias para vencer.  


Mas o texto também nos apresenta um sentido humano, físico. Pensando como estrategistas militares, lembrando que Deus é o Senhor dos Exércitos, dono de toda sabedoria: o que seria mais efetivo? Movimentar 30 mil homens, chamando a atenção de todos, alertando as defesas adversárias e permitindo que se reorganizassem? Ou movimentar 300 dos melhores soldados, rápidos, fiéis e preparados, em uma estratégia de guerra-relâmpago, de guerrilha, atacando de surpresa sem que o inimigo estivesse pronto? Fica evidente que, mesmo não estando explícito no texto bíblico, havia também um sentido militar. Além disso, 300 soldados são muito mais fáceis de armar, alimentar e deslocar do que 30 mil.  


Com uma ação decisiva, Israel venceu seus inimigos, derrotou-os completamente, e a terra repousou em paz.  


Após esses acontecimentos, ficou claro que Gideão havia liderado Israel em grandes feitos, e sua casa se tornou poderosa. Mas o poder tem um defeito: a Bíblia descreve que ele teve muitos filhos — 70 ao todo — porque possuía muitas esposas. Isso indicava grande poder aquisitivo e influência tribal. Contudo, líderes muito fortes unem o povo sob uma única bandeira, e quando morrem, deixam um vácuo de poder.  


Sem um novo líder preparado, a instabilidade consome tudo. Gideão não deixou entre seus filhos alguém com liderança forte ou respeito suficiente. Surge então Abimeleque, filho de uma concubina de Siquém, tratado como inferior pelos demais. Essa forma patriarcal de organização familiar gerou muitos eventos caóticos em Israel. Abimeleque decidiu que seria rei — algo que nem seu pai reivindicou. Para isso, matou cruelmente todos os seus irmãos, exceto um, que sobreviveu e profetizou sua queda.  


O curioso é como essa queda ocorreu: o próprio povo de Siquém, que o ajudou a tomar o poder, foi quem lutou contra ele em uma guerra civil, criando o cenário para a destruição definitiva de seu reinado. A lição bíblica dessa passagem é clara: no fim, os traidores se destroem. Uma pessoa infiel pode criar alianças, mas no final é como uma porta podre — basta um empurrão para cair. Tanto Abimeleque quanto o povo de Siquém se destruíram por ganância e sede de poder.

- A Quinta Opressão (8:33-10:5)  

Após a morte de Gideão, Israel voltou a pecar. Tola e Jair foram juízes e libertadores.

Tola entre os juízes é um dos mais desconhecidos, ele foi da casa de Issacar,e após ele Jair o gileadita.


- A Sexta Opressão (10:6-12:15)  

Por dezoito anos, Israel se sujeitou aos Filisteus e Amonitas. Jefté foi o libertador.

Nessa sexta opressão, nos é apresentada uma das figuras mais contraditórias do período dos Juízes. Ao mesmo tempo em que foi um homem que realizou feitos de fé, também cometeu erros trágicos. Quando Israel estava em pecado e em grande aflição, clamaram ao Senhor. A princípio, Deus recusou ajudá-los, dizendo aos israelitas que buscassem auxílio nos falsos deuses que estavam adorando. Após isso, houve um grande arrependimento em Israel: eles jogaram fora todos os seus ídolos e pediram novamente a ajuda de Deus. Então o Senhor demonstrou ser flexível e piedoso, decidindo socorrê-los. Dessa vez, quem os ajudaria seria Jefté, novamente um gileadita.


O inimigo agora era o povo de Amom. Jefté enviou embaixadores para negociar a paz com o rei amonita, mas este recusou — algo bastante curioso.

Juízes 11:12-13

" 12 E enviou Jefté embaixadores ao rei dos amonitas, dizendo: Que tens tu comigo que vieste a mim para fazer guerra em minha terra? 

13 E o rei dos amonitas respondeu aos embaixadores de Jefté: Porquanto Israel tomou minha terra, quando subiu do Egito, desde Arnom até Jaboque e o Jordão; portanto, devolve-as agora em paz. "

O rei amonita reivindicava um território que Israel supostamente tinha sido tomado dos amonitas, mas isso não era legitimo:


É comum, ao longo da história, que líderes nacionais tentem iniciar guerras de expansão usando argumentos históricos para conquistar apoio popular. Geralmente, atribuem uma posse antiga ou um passado em comum com algum povo que habitou determinada terra. Esse foi justamente o argumento utilizado pelo rei amonita. Essa prática é recorrente na história, mas algo igualmente comum é que ceder às vontades expansionistas costuma ser um erro, pois é entendido como fraqueza — e isso apenas motiva ainda mais agressividade.  


Por exemplo, todos já ouviram falar de Adolf Hitler, o ditador alemão que iniciou a Segunda Guerra Mundial. Tudo começou com a anexação do território do Sarre e, depois, da Áustria, com muita facilidade. Na época, países europeus como França e Reino Unido limitaram-se a protestar, sem se envolver diretamente. Isso deu confiança a Hitler para continuar sua expansão contra os Sudetos tchecos e, posteriormente, contra a Polônia — evento que desencadeou de vez a Segunda Guerra Mundial.  


Seguindo essa mesma lógica, se Jefté e os demais líderes de Israel cedessem territórios aos amonitas, o que ocorreria é que eles continuariam avançando, até, se possível, anexarem toda Israel. Sabiamente, Jefté e os gileaditas iniciaram as hostilidades contra os amonitas, e Israel venceu. A Bíblia diz que o Espírito do Senhor estava com Jefté, e a vitória veio. Mas houve um deslize, um erro grave, descrito no texto bíblico em: (trecho a ser citado pelo autor).


Juizes 11:30-32

"30 E Jefté fez voto ao SENHOR, dizendo: Se entregares aos amonitas em minhas mãos, 

31 Qualquer um que me sair a receber das portas de minha casa, quando voltar dos amonitas em paz, será do SENHOR, e lhe oferecerei em holocausto. 

32 Passou, pois, Jefté aos filhos de Amom para lutar contra eles; e o SENHOR os entregou em sua mão."

Essa passagem geralmente é interpretada como uma ação irracional do ser humano em momentos adversos. Jefté iria travar uma guerra, e é natural que, sob pressão, digamos coisas que não deveríamos dizer. Ele falou de forma “emocionada”, sem pensar nas consequências. A grande maioria dos leitores dessa passagem concorda que Jefté prometeu sacrificar qualquer coisa que aparecesse primeiro quando retornasse para casa. Muitos acreditam que ele imaginava que seria um animal do campo, ou até mesmo que não acreditava realmente que venceria a batalha — por isso falou demais.  


Quem nunca jurou alto em momentos de provação? “Se eu conseguir sair dessa situação, vou caminhar de Campinas até Aparecida”; ou “Se meu pai vencer o câncer terminal, vou vender o carro e doar o dinheiro aos pobres”. São promessas vazias, feitas em momentos de descrença ou irracionalidade. Mas todo ser humano é refém de suas próprias ações.  


Continuando o texto, Jefté vence os amonitas e retorna para casa. Mas, ao chegar, acontece que...

" 34 E voltando Jefté a Mispá à sua casa, eis que sua filha lhe saiu a receber com adufes e danças, e era a única, a única sua; não tinha além dela outro filho nem filha. 

35 E quando ele a viu, rompeu suas roupas dizendo: Ai, filha minha! De verdade me abateste, e tu és dos que me afligem: porque eu abri minha boca ao SENHOR, e não poderei retratar-me. 

36 Ela então lhe respondeu: Pai meu, se abriste tua boca ao SENHOR, faze de mim como saiu de tua boca, pois que o SENHOR fez vingança em teus inimigos os filhos de Amom. - A Sétima Opressão (Capítulos 13-16)  "

O primeiro que veio ao encontro de Jefté foi justamente sua única filha. Em meio à tristeza, ele seguiu com o que havia prometido. À primeira vista, parece tratar-se de Jefté ter sacrificado sua filha em um holocausto, algo aparentemente claro no texto bíblico. Ela aceitou seu destino, respeitando a promessa de seu pai. Essa passagem é comumente interpretada de duas formas, e deixo para que cada um escolha a que lhe parecer mais razoável.


Uma interpretação mais branda é que não houve um holocausto literal. Jefté era um homem usado por Deus, e alguns versículos anteriores afirmam que o Espírito do Senhor estava com ele. Segundo essa linha, o que ocorreu foi um celibato: sua filha passaria a viver sem se casar, dedicando-se exclusivamente a Deus. Isso explicaria por que ela e suas amigas choraram pela sua virgindade. Essa interpretação parece razoável, e como ela era a única filha de Jefté, ele ficou extremamente triste, pois, ao fazer isso, estaria eliminando sua própria linhagem — algo muito doloroso para os homens daquele tempo.


Essa é a interpretação mais branda, mas não é a majoritária. O mais comum é interpretar de forma literal: que, de fato, Jefté sacrificou sua própria filha. Se observarmos bem, a grande maioria dos personagens bíblicos do Antigo Testamento, mesmo os chamados “heróis da fé”, foram pessoas controversas e que tiveram momentos de deslize, praticando atos irracionais.  


Essa percepção começa já em Noé, quando amaldiçoa seu próprio filho Cam, condenando não apenas ele, mas todos os seus descendentes — algo extremo, pois netos e bisnetos que nada tinham a ver com o erro de Cam pagariam por isso. Mais à frente, vemos Abraão, chamado de “pai da fé”, mas que mentiu sobre Sara ser sua esposa, demonstrando falta de confiança na proteção de Deus. Depois, encontramos Moisés, homem calmo e sempre na presença de Deus, mas que também teve sua ira como deslize. Davi, o homem segundo o coração de Deus, caiu em adultério e ainda mandou matar um soldado fiel, que não quis abandonar seus companheiros no campo de batalha.  


Poderíamos citar inúmeros outros personagens bíblicos como exemplo. Tudo isso mostra que nenhum deles foi perfeito. Na verdade, em uma sociedade tribal como a daqueles dias, não podemos aplicar a lógica da nossa sociedade atual, nem exigir a racionalidade dos tempos modernos.


Sétima opressão: Quarenta anos de servidão aos Filisteus. O libertador foi Sansão.

Sansão foi o último e, no meu ponto de vista, o mais importante dos líderes narrados em Juízes. Diferente dos demais, ele foi separado desde antes mesmo de nascer. Sua consagração começou por uma razão profundamente espiritual: Deus se manifestaria em Sansão. Ao contrário dos outros juízes, que nas guerras travadas por Israel o Senhor utilizava apenas estratégias militares e ações mais limitadas, dessa vez Deus agiria de forma mais ativa. Enxergo essa intervenção divina como reflexo de uma guerra espiritual, e não meramente física, que seria travada entre filisteus e israelitas.  


Alguns aspectos tornam a aparição da figura de Sansão diferente das demais:

Aspecto 1: Ele foi separado desde o ventre da sua mãe.

 A Bíblia diz que um anjo do Senhor visitou a mãe de Sansão e a instruiu a não consumir vinho, não cortar o cabelo e a dedicar o filho ao voto nazireu, de forma que ele viveria uma vida consagrada ao Senhor. O fato de sua mãe ser estéril também revela que, desde o nascimento, sua vida já estava marcada por ações divinas, pela intervenção da mão oculta do Senhor.  


Juízes, capítulo 13:

"2 E havia um homem de Zorá, da tribo de Dã, o qual se chamava Manoá; e sua mulher era estéril, que nunca havia dado à luz. 

3 A esta mulher apareceu o anjo do SENHOR, e disse-lhe: Eis que tu és estéril, e não pariste: mas conceberás e darás à luz um filho. 

4 Agora, pois, olha que agora não bebas vinho, nem bebida forte, nem comas coisa imunda. 

5 Porque tu te farás grávida, e darás à luz um filho: e não subirá navalha sobre sua cabeça, porque aquele menino será nazireu a Deus desde o ventre, e ele começará a salvar a Israel da mão dos filisteus."

Embora o anjo do Senhor tenha se manifestado à mãe de Sansão, ela não teve certeza do que se tratava e contou ao seu marido. Este, tomado pela curiosidade, orou a Deus pedindo que o homem de Deus retornasse e confirmasse o ocorrido. A Bíblia relata que isso de fato aconteceu: dessa vez, o anjo do Senhor se manifestou diretamente ao pai de Sansão, mas sem revelar que era um anjo. Ainda assim, Manoá reconheceu aquele homem como alguém que vinha da parte de Deus.  


A partir do versículo 13, é relatado que o anjo aparece novamente e confirma o que já havia dito anteriormente. Só que, dessa vez, o pai de Sansão pede por um nome, querendo saber quem era aquele que profetizava tais coisas grandiosas e exigia consagração ao futuro filho. O anjo, entretanto, responde:  


“Por que perguntas pelo meu nome, que é oculto?”  


Essa passagem ganha maior profundidade espiritual quando, ao ser realizado um sacrifício a Deus, o anjo faz um sinal milagroso, demonstrando que o Senhor recebia aquele sacrifício. Só então Manoá e sua esposa reconheceram que aquele ser misterioso era um anjo do Senhor. Mais importante ainda: o próprio Deus havia se manifestado naquele anjo. Nos versos seguintes, Manoá declara:


"22 E disse Manoá à sua mulher: Certamente morreremos, porque vimos a Deus."

Esse tipo de afirmação é comum em algumas passagens do Velho Testamento. Havia o entendimento de que o homem não consegue ver Deus diretamente, e que, se o visse, morreria, pois Deus é de tamanha santidade que a humanidade não suportaria contemplá-Lo. No entanto, isso não acontece porque não se trata de uma visão direta, mas sim de uma teofania — uma manifestação de Deus aos homens.  


O próprio Sansão foi escolhido desde sua formação no ventre de sua mãe para ser uma peça usada por Jeová como manifestação.  


Isso é confirmado no final do capítulo 13, que diz:


"24 E a mulher deu à luz um filho, e chamou-lhe por nome Sansão. E o menino cresceu, e o SENHOR o abençoou. 

25 E o espírito do SENHOR começou a manifestar-se nele nos acampamentos de Dã, entre Zorá e Estaol."

Resumindo, vemos provas bíblicas de que o Espírito do Senhor se manifestou em Sansão. Exatamente por isso, desde sua criação, ele foi completamente separado e diferente.  


Aspecto 2: Sansão foi dotado de uma força sobre-humana. Diferente dos demais juízes, não lutava ao lado de exércitos, mas sozinho. Mesmo solitário, realizou grandes feitos, derrotando inúmeros inimigos — o que remete a uma ação espiritual em sua vida. Seu primeiro grande feito foi lutar contra um leão e matá-lo sem dificuldade; desse leão, posteriormente, saiu mel. Mas nesse mesmo contexto de força extraordinária, Sansão revelou uma fraqueza que o inimigo exploraria: criou um enigma e não contou a resposta a ninguém, nem mesmo a seus pais, desafiando um grupo de filisteus a resolvê-lo durante um banquete em que planejava pedir a mão de Timna, uma filisteia.  


O enigma era difícil, e os homens pressionaram Timna para descobrir a resposta. Após insistência, ela traiu Sansão, revelando o segredo aos seus compatriotas. Traído, Sansão atacou um grupo de filisteus, derrotou cerca de 30 inimigos, tomou seus despojos e voltou para a casa de seus pais. Timna, no fim, foi entregue a outro homem.  


Quando Sansão retorna e descobre que havia perdido sua esposa, fica irado e ataca plantações dos filisteus, iniciando uma crise generalizada. A inimizade entre ele e os filisteus não tinha mais volta. Os filisteus exigiram que os homens de Judá entregassem Sansão, e, sem escolha, eles o prenderam com duas cordas novas e o entregaram aos inimigos. Os filisteus celebraram, mas então o Espírito do Senhor caiu sobre Sansão, e ele derrotou mais de mil inimigos. Nesse dia, libertou Israel e liderou o povo por dez anos. A narrativa bíblica dá a entender que, por um tempo, os filisteus não ousaram enfrentá-lo militarmente.  


Aspecto 3: Sansão era um homem de Deus, no qual o Senhor se manifestava inúmeras vezes. Mas era humano, sujeito ao pecado, e Satanás explorou sua fraqueza novamente por meio de uma mulher. A primeira foi Timna; depois, Dalila. Logo no início do capítulo 16, vemos Sansão em Gaza, dormindo com uma prostituta, enquanto espiões filisteus monitoravam seus passos. Essa vulnerabilidade foi explorada. Mais tarde, apaixonou-se por uma mulher no vale de Soreque, e os filisteus a subornaram para descobrir seu segredo. Dalila o entregou, cortando seu cabelo, e Sansão foi capturado.  


Aspecto 4: o desfecho espiritual da história de Sansão, cheio de simbologias e significados ocultos.  


Após ser capturado, os filisteus adoravam seu deus pagão, Dagon (também associado a Moloque e, em cultos modernos, ao nome Baphomet). Sansão seria usado como peça de entretenimento ou até mesmo de sacrifício diante dos príncipes filisteus. Colocado entre duas colunas, ocorre o momento decisivo.  


Aqui cabe uma observação extra: em tradições ocultistas, duas colunas representariam o número 11. Na numerologia bíblica, Deus é representado pelo número 10, pois Ele diz: “Eu sou o Alfa e o Ômega” — alfa representando o 1 e ômega o 0, formando o 10. No ocultismo, o número 11 simbolizaria um passo além de Deus. Assim, aquelas colunas seriam vistas como símbolos de rebelião contra o Senhor.  


Mas, naquele dia, Deus concedeu a Sansão um último pedido. O Espírito do Senhor caiu sobre ele novamente, e Sansão derrubou as duas colunas, matando mais filisteus em sua morte do que em toda a sua vida. Mais importante ainda: ali morria a liderança da Filisteia, os que detinham o poder de decisão. Isso garantiu a Israel liberdade por um tempo.


Anarquia em Israel (Capítulos 17-21)  

- Capítulos 17 e 18: anarquia na vida religiosa.  

- Capítulo 19: anarquia na vida moral.  

- Capítulos 20 e 21: anarquia na vida nacional.  


O livro termina com:  

“Naqueles dias não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto.” (21:25).


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